Empresa e Responsabilidade Social 

Um leigo em contabilidade sente-se perdido diante do balanço de uma empresa, e mesmo especialistas às vezes encontram dificuldades para ver com clareza o que pode estar embutido nos desdobramentos daqueles demonstrativos. Ocorre que toda empresa tem responsabilidade perante a comunidade em que se insere e deveria prestar contas de suas atividades com absoluta clareza, a fim de que todos – e não apenas os profissionais do ramo – entendessem como a empresa está agindo com relação à sociedade. Esclarecimentos deveriam ser apresentados num documento redigido em linguagem acessível a todos, o Balanço Social, que a maioria das empresas relutam em fornecer.

 Para a existência de um  empreendimento, é condição imperativa a junção de três fatores básicos de produção: capital, trabalho e recursos naturais. Histórica e culturalmente o capital sempre foi considerado o mais importante na hierarquia, vindo a seguir o trabalho, e por fim, “sem voz”, os recursos naturais.

 Nos tempos modernos constata-se maior demanda pela informação acerca dos dados que formam esse conjunto, ou seja: os investimentos feitos, os recursos gerados e o retorno para as partes envolvidas. No entanto, as Demonstrações Financeiras (balanços) atualmente publicadas pelas empresas, apesar de estarem  acompanhadas de notas explicativas que visam a detalhar melhor as informações sobre fatos relevantes que eventualmente alteraram a uniformidade dos critérios de apropriação e avaliação dos componentes patrimoniais, de há muito não vêm atendendo às exigências de uma sociedade que tem como usuários das informações 

·        coletividade interna (empregados, clientes, fornecedores e acionistas);

·        entidades de classe representativas de empregados e empregadores;

·        autoridades governamentais;

·        imprensa, pesquisadores e historiadores;

·        coletividade externa (interesses globalizados e opinião pública em geral).

 Apesar de muitas empresas se esforçarem  para tornar as informações patrimoniais mais transparentes, em virtude da sua característica técnica, as Demonstrações Financeiras não são  acessíveis  à opinião pública, e seria necessário complementá-las com dados sobre quantidades, indicadores, volumes, gráficos, etc.

 Cabe ao Congresso Nacional aprovar legislação específica (Projeto de Lei 0032/99 já em trâmite nas Comissões daquela casa), com o objetivo de tornar obrigatória a elaboração e publicação por parte das empresas de um relatório complementar às atuais demonstrações financeiras denominado Balanço Social (já existente em outros países), cuja função básica é apresentar, através de dados, o envolvimento da empresa com os elementos que a cercam, incluindo-se aí o meio ambiente, a coletividade e os recursos humanos envolvidos na sua operacionalização. Desse modo, o Balanço Social vem  contribuir para a ampliação do público alvo da informação e teria os aspectos expostos a seguir.

 OBJETIVOS

·        explicitar a riqueza gerada pela empresa e sua distribuição entre os agentes de sua produção;

·        ampliar o conteúdo das Demonstrações Financeiras, adicionando informações e aprofundando seu significado;

·        fortalecer a empresa contábil, econômica e socialmente, perante a comunidade.

 FORMAS DE APRESENTAÇÃO

·        Balanço Ambiental: deve refletir todo o envolvimento da empresa com o meio ambiente no qual está inserida.

·        Balanço de Recursos Humanos: deve retratar o perfil da força de trabalho da Companhia e a reciprocidade entre as duas partes (capital x trabalho).

·        Demonstração do Valor Adicionado: a diferença em (R$) entre o valor das vendas líquidas, e o valor do custo das mercadorias vendidas (lucro bruto), representa o valor adicionado pela empresa para a sociedade, ou seja, a riqueza gerada e a sua forma de distribuição.

 PRINCIPAIS INFORMAÇÕES:

MEIO AMBIENTE

·        Resumo da política ambiental da empresa.

·        Órgãos internos voltados para preservação do meio ambiente: núcleos, comitês, comissões etc.

·        Investimentos em ações de preservação ambiental (internas e externas).

·        Investimentos em pesquisas voltadas ao meio ambiente e melhoria de seus produtos.

·        Certificações de qualidade obtidas.            

SOCIEDADE:

·        Resumo da política de recursos humanos da empresa.

·        Programa de participação  nos lucros e resultados.

·        Programa de benefícios.

·        Ações e Investimentos na capacitação dos funcionários.

·        Ações e Investimentos na segurança e no ambiente de trabalho.

·        Interação da empresa com a comunidade (bibliotecas, associações, promoção de eventos, doações),  etc.

·        Número de empregados no início e no fim do período.

 RIQUEZA GERADA

Formação:

- Receita Operacional Líquida.

- Lucro Operacional.

- Lucro do Exercício.

Distribuição:

- Impostos.

- Participação nos lucros ou resultados.

- Dividendos distribuídos.

- Folha de pagamento e contribuições previdenciárias.

- Assistência médica e odontológica, transporte, alimentação, seguro de vida e treinamento.

 Como não temos ainda regulamentação para o assunto, não  há padronização para divulgação dessas informações e inexiste a obrigatoriedade  de sua publicação. Em decorrência, observa-se que as poucas empresas que atualmente estão publicando, fazem-no sem nenhuma padronização e da maneira que melhor atenda aos interesses relativos à melhoria de sua imagem.

 Como alternativa, e visando à padronização das informações, algumas empresas  estão adotando o modelo proposto pelo órgão governamental IBASE – Instituto Brasileiro de Análise Social e Econômica. Esta iniciativa é muito importante, pois permite eventual análise e comparação dos dados apresentados por tipo de empresa, segmento econômico, porte, etc.

 Só resta esperar que as empresas assumam, em definitivo, mais esta responsabilidade social.

 

Artigo publicado no boletim:  IOB Comenta, 4ª semana, fev/02.