País de Otários

"O ser humano é centro e medida de todas as coisas. Não são as instituições que fazem o valor do homem e, sim, os homens que fazem o valor das instituições". (Profª Cacilda rigonatto)

Quando se fala em ética, muitos logo associam o assunto à concorrência desleal praticado no âmbito profissional.
        É claro que esse aspecto está contido dentro do tema, mas na verdade é apenas um,a diminuta faceta do que o estudo do assunto comporta, e não é sobre isso que pretendo discorrer.
        Também não quero entrar na esfera filosófica do tema, mas apenas tentar demonstrar como a ética- ou melhor, a falta dela - afeta a sociedade como um todo e está intimamente ligada à maioria dos problemas que estamos enfrentando atualmente. Para comprovar como isso é verdadeiro, basta procurarmos exemplos de mau comportamento que são corriqueiros no dia-a-dia das pessoas para percebermos como isso acaba tomando vulto e causando inúmeros prejuízos à sociedade.
       Quem já não caiu na tentação de "dar uns trocados" para não sofrer uma multa de trânsito?
       Parece uma atitude que não irá ter maiores conseqüências, a não ser a economia do pagamento da multa e de alguns pontos na carteira. Entretanto, essa simples transgressão movimenta uma engrenagem enorme de corrupção.
      A conseqüência? Basta dizer que o Brasil é um dos países com transito mais violento do mundo.
      Outro exemplo: comprar o uísque mais barato do nosso conhecido que faz "importabando".
      Que mal pode haver nessa atitude? Será que o imposto sonegado fará diferença no total de impostos arrecadados pelo país? Inicialmente, é preciso reconhecer que alguém que importa legalmente o produto está sendo prejudicado, pois, com certeza, trabalhando na formalidade, não terá condições de competir com alguém que não tem atividade legalizada. Mas, muito pior do que isso, esse mercado ilegal está intimamente ligado a outros que não são nada inocentes, como é o caso do contrabando de armas e o tráfico de drogas.
      O mesmo pode se aplicar no caso de compra de produtos de camelôs. As inúmeras operações policiais que temos assistido nos noticiários de TV, acompanhadas da fiscalização, têm comprovado que, com raras exceções, esse mercado é abastecido por  produtos roubados ou contrabandeados.       Então, vejam, uma simples compra de um camelô movimenta a engrenagem do crime organizado de roubo de cargas.
      Poderia citar exemplos muito mais graves que esses. Entretanto, fico apenas nesses casos que parecem simples para mostrar as conseqüências que eles podem ocasionar.
Aí alguém pode perguntar? Mas isso tem a ver com ética? Sim, tem tudo a ver, pois se não houver uma mudança no comportamento individual das pessoas não conseguiremos nunca mudar toda uma sociedade. Só teremos uma sociedade justa e com princípios éticos quando todos os componentes dessa sociedade agirem com ética e com justiça.
      Temos, portanto, que mudar, dando o exemplo da conduta pessoal, na prática de princípios morais e de decência que devem nortear o procedimento de todos aqueles que querem verdadeiramente o melhor para  esse país.
      Como apregoa o rotariano Carlos Alberto Hernandes, "poderíamos começar pela revogação da famosa "Lei de Gerson" - até porque, para que exista um esperto que "gosta de levar vantagem em tudo" tem de existir pelo menos um otário. E é impossível continuarmos a ser um país de espertos, sem sermos, ao mesmo tempo, um país de otários".

Valdemar L. Armesto - Empresário Contábil e Diretor do Sescon-SP
Revista Sescon-sp, ano 15 - nº 172 Agosto - 2003.