V  I V E R    A    V I D A

  

Se eu pudesse viver novamente  minha vida, trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Teria menos pressa e menos medo.
Daria valor secundário às coisas secundárias; na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria muito mais alegre do que fui. Só na alegria existe vida.
Manteria distância enorme das pessoas ciumentas e possessivas.
Seria mais espontâneo. Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Seria mais ousado: a ousadia move o mundo.
Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos sopa, teria menos problemas reais e nenhum problema imaginário.
Eu fui uma dessa pessoas que vivem preocupadamente cada minuto da sua vida, claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver, tentaria somente bons momentos.
A vida é feita disso: só de momentos. Viva o agora.
Mesmo porque nada nos garante que estaremos vivos amanhã de manhã.
Eu era um desses que não ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva ou um pára-quedas; se voltasse a viver, viajaria mais leve. Não levaria comigo nada que fosse apenas um fardo.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no início da primavera e continuaria assim até o final do outono.
Jamais experimentaria sentimentos de culpa ou de ódio, amaria mais a liberdade e teria mais amores do que tive.
Viveria cada dia como se fosse um prêmio. É como se fosse o último.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria muito mais do que brinquei.
Teria descoberto mais cedo que só o Prazer nos livra da loucura.
Tentaria uma coisa nova todos os dias, se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas como todos sabem, estou morrendo...

 

Este texto é de JORGE LUIS BORGES, escritor, ensaísta e novelista argentino, um dos maiores expoentes culturais do seu país e da América do Sul. foi escrito quando o autor descobriu que sofria de uma doença incurável e que lhe restava pouco tempo de vida. Tinha então, 88 anos.